Este texto apresenta memórias do nascimento da igreja em Piracicaba. O texto é de Sueli Rubini (testemunho oral) e a revisão de NFBarros.
A CASA DE ORAÇÃO DE PIRACICABA - HISTÓRIAS
Conversando com NFBarros sobre histórias da Casa de Oração, resolvemos fazer um relato, mais ou menos organizado, de tudo aquilo que está registrado na memória dos crentes, não conforme documentos de reverendos, pastores e missionários mas segundo a tradição oral dos membros, da visão deles, que, quase sempre, corresponde aos fatos oficiais e muitas vezes difere quanto aos seus atores principais, homens do povo, não eclesiásticos, simples trabalhadores evangélicos. Organizamos o assunto em partes, sendo a primeira, um histórico geral e, depois, diversas histórias sobre as famílias e os crentes que viveram a vida da Igreja nesse mais de século. A maioria das informações não é documental, mas histórias passadas de pais para filhos e esperamos poder contar com a colaboração dos leitores que nos passem relatos e fotos antigas, enfim, o saboroso conto de nossas vidas vividas. (S. Rubini e outros)
Parte I – Histórico geral
Introdução - O Evangelho da nossa posição começou, aqui na região de Piracicaba, por volta de 1860, quando os presbiterianos vieram trabalhar em Rio Claro, Piracicaba e serra de S. Pedro. Antes, em 1847, já haviam chegado à região os luteranos, quando o senador Vergueiro, abolicionista e anti-escravagista, contratou colonos europeus, suíços e alemães, para trabalharem na sua fazenda de Limeira e eles acabaram vindo a Piracicaba, onde, em 1852, compraram um sítio de 6 alqueires para fazerem um cemitério.
Naquele tempo do Brasil Império enterrar seus mortos era um problema para os cristãos não romanos, porque o catolicismo era a religião oficial brasileira e, para se abrir uma igreja, registrar nascimentos, casamentos e enterros era preciso pedir autorização ao bispo e aos padres da Igreja Católica. Como o Brasil estava vivendo um período de agitação política entre os republicanos e liberais, havia um certo estremecimento entre a Igreja Católica e o Imperador D.Pedro II – a questão católica -, este procurou facilitar a entrada dos colonos assalariados europeus, protestantes, para criar um contraponto ao domínio absoluto do catolicismo, condescendente com o escravagismo dos conservadores escravocratas rurais que, havia 350 anos, transformaram o Brasil numa reserva de domínio da Igreja Católica. Daí surgiu a imigração dos colonos protestantes e estes encontraram um país completamente inóspito, que não tinha nenhuma estrutura protestante e nenhuma liberdade de culto, principalmente nas questões de fé, usos e costumes religiosos. Por isso, a necessidade dos luteranos em encontrar um lugar para enterrar seus mortos sem se submeterem ao arbítrio dos padres e bispos.
Como já havia muitos colonos que se mudaram para Piracicaba (e deram origem ao bairro dos alemães), a solução encontrada foi comprar o sítio para o cemitério que depois, mais tarde, foi desapropriado pela prefeitura, 1º Cemiterio publico da Cidade, hoje Escola Moraes Barros, sob influência do vereador Prudente de Morais Barros, futuro presidente da república e aí se instalou o cemitério da Saudade, até hoje. Com essa questão religiosa católico-imperial, a efervescência republicana e os políticos liberais na região que anteviam a impossibilidade de o regime escravocrata perpetuar-se, foi possível às missões protestantes se infiltrarem no Brasil católico romano e a segunda metade do século XIX viu surgirem muitas igrejas evangélicas de origem européia e americana, como metodistas, batistas, presbiterianos, etc.
Na serra de S. Pedro, nessa época (1865), os presbiterianos conseguiram converter o padre de Brotas que passou a trabalhar como protestante. Então iniciaram um ponto de trabalho evangelístico, que se transformou em igreja, entre os patrimônios de Santo Antonio e São Sebastião, em cima da serra, origem do bairro dos Protestantes, porque houve muita conversão ao evangelho não romano ali.
A região de Piracicaba tornou-se importante centro de evangelismo neotestamentário, e nós nos chamamos Cristãos Evangélicos Neotestamentários, porque temos por base da nossa fé o Evangelho do Novo Testamento.
No final do século XIX, havia uma grande ação missionária em Piracicaba, da Fraternidade dos Irmãos Unidos, que era uma dissidência da Igreja Presbiteriana Escocesa. Essa corrente teve início por volta de 1830, quando John Darby, um teólogo presbiteriano desenvolveu um estudo que baseava a vida da Igreja no versículo que diz que nós, os salvos, somos a Nação Santa e Sacerdócio Real (I Pedro 2-9), entendendo-se que a igreja não tem duas classes, uma sacerdotal e outra leiga (pastores ou padres, eclesiásticos e membros, homens comuns) e que ela não deveria ter esse tipo de organização, mas que todos deveriam ser iguais e terem as mesmas prerrogativas, com cada um exercendo o seu dom, livremente. Essa posição de Darby levou-o a criar a Fraternidade dos Irmãos Unidos, que teve um grande trabalho missionário aqui na região.
Por volta de 1890, eram missionários dessa posição os Irmãos McNair e Willian Anglin, os quais criaram a Casa de Oração de Piracicaba, juntamente com outros irmãos, em outubro de 1900. O trabalho da atual Igreja Casa de Oração, segundo relatos orais pelos mais velhos, começou atrás da Estação da Paulista, que era uma fazenda onde morava uma família negra, que ouviu o evangelho e aceitou-o, oferecendo a sua casa como ponto de reunião dos crentes.
Ali se encontraram os “Crentes Unidos” por mais de 15 anos, e nesse meio tempo, o luterano Antonio Martins (Anton Martin), se filiou a essa comunidade e a reunião dos crentes passou a ser em sua selaria, junto á sua casa, à Rua da Boa Morte, em frente ao colégio Assunção, onde hoje existe uma pracinha. Antonio Martins era aberto a toda atividade religiosa dos missionários evangélicos e ajudou muitos na sua casa da hoje praça Miguelzinho Dutra.
Em 1928, o Irmão Antonio Martins faleceu, e a viúva pediu aos irmãos para que arrumassem um outro lugar para se reunirem.
A partir daí os irmãos se organizaram e fizeram coletas e serviços para arrecadar dinheiro, comprar o terreno e construir a igreja. Saíam pelas ruas, aos domingos, vendendo frutas e verduras e alguns levavam vacas e vendiam copos de leite de porta em porta.
Em maio de 1931, com o esforço de todos, os irmãos conseguiram comprar um terreno na Rua Moraes Barros e construíram ali a primeira Igreja Casa de Oração inaugurada em 6 de Março de 1932, com a presença, segundo algumas testemunhas, do missionário George Howes.
Dois irmãos portugueses - Em março de 1908, Florindo e Manoelzinho, eram duas crianças de 8 e 6 anos de idade, que vieram de Portugal, na companhia de seu irmão José, moço, e chegaram à cidade de Capivari, onde foram criados por seus parentes que ali residiam e aí passaram toda sua infância e adolescência. Em fins de 1915, Florindo então jovem de 16 anos, e o seu irmão Manoelzinho, como era conhecido, se converteram pelo trabalho da “Irmã Benvinda”, uma crente famosa pela força espiritual que possuía. Manoelzinho, logo que convertido, começou imediatamente seu trabalho cristão, tendo se tornado um grande evangelista da Igreja, até sua morte em 1955 com 54 anos de idade, enquanto que Florindo ficou por 20 anos estudando a Bíblia, lendo-a, neste período, completamente por 28 vezes, e só depois passou a ensiná-la na Igreja, trabalho que exerceu por 30 anos, vindo a falecer em 2 de Abril de 1964.
O evangelho da Casa de Oração recebeu um grande impulso tanto em membros quanto em conhecimento bíblico e a Igreja se organizou em associação legalmente constituída no dia 08.07.1943, com o registro nº 44 no cartório de notas da cidade, sob o nome de Associação Evangélica de Propriedade em Casas de Oração. atendendo aos novos requisitos legais obrigatórios a partir daquela data. Ficava clara a intenção de dar o nome de Casas de Oração ao local de reunião, livre e independente, embora em comunhão espiritual com as suas congêneres e aceitava-se normalmente o trabalho de missionários no seu meio, tendo participado ativamente da vida da comunidade o inglês Richard Dawson Jones, o “irmão Ricardo”, desde essa época até sua morte em 1992. – “E o nome da igreja?” perguntou em sua mocidade, ao começar a trabalhar na diretoria, um dos netos do irmão Florindo, qual é nosso nome? - “Nós só temos um sobrenome: de Cristo! Somos todos Natanael de Cristo, Antonio de Cristo, José de Cristo, Maria de Cristo, etc;, formando a grande família de Deus, que toma o nome do seu salvador para todo o sempre!” respondeu-lhe sabiamente o irmão Antonio Sutto, presbítero de saudosa memória.
A conversão da família Zen - No final dos anos 30 e princípio dos anos 40, o grande trabalho da Igreja, quanto à evangelização, resultou na conversão da Família Zen, por volta de 1942/45, os quais moravam no Bairro da Reta, perto da usina Costa Pinto e que, depois de se converterem, vinham para as reuniões na Casa de Oração Moraes Barros. Conta-se que o primeiro irmão Zen a se converter foi Antonio Zem Sobº, o Nico. Esse era de família italiana, num total de seis irmãos homens (José Luiz, o Juca Zen, Nico, Otávio, Sebastião, Hercílio e Alcindo) e três mulheres (Antonia, Maria e Maria Aparecida, Dica), sendo que os três últimos homens estão vivos, com mais de 80 anos. Uma característica marcante da família Zen era o fato de os irmãos serem amantes da música, um talento natural que fê-los ter um conjunto musical profano, antes de serem crentes e que, depois da conversão, constituiu-se fator importante no trabalho evangélico da família. Com a conversão dos Zen, incluindo o pai Giuseppe e a mãe Henriquetta, a Casa de Oração dos “Irmãos Unidos” terminou a sua parte de consolidação em Piracicaba e ficou preparada para o desenvolvimento posterior, com crescimento do número de membros e multiplicação dos trabalhos evangélicos.
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