sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O SACERDÓCIO DAS MULHERES CRISTÃS

1. O USO DO VÉU
2. LIMITES


INTRODUÇÃO
O sacerdócio das mulheres cristãs na Igreja tem sido um assunto polêmico através dos séculos, com posições das congregações que vão desde a proibição pura e simples para qualquer tipo de manifestação até a ampla e irrestrita participação em todas as atividades.
Na verdade, as posições extremas e irrestritas, contra ou a favor, não são as corretas, porque é inegável que as mulheres têm participação, sim, na obra de Cristo, mas há limites claramente definidos e ordenados, como em tudo que ocorre dentro da Igreja.
Entre os condicionantes, um que causa disputa é o uso do véu, assunto confuso para muita gente, que não sabe se é apenas tradição e costume antigo ou exigência na Igreja e se pode ou não ser substituído pelo cabelo comprido. E como definir mulher com cabelo comprido ou tosquiado?
E quais são os limites do sacerdócio da mulher? O que ela pode e o que não pode fazer? As respostas a essas perguntas só podem ser encontradas na Bíblia.
1. O USO DO VÉU
(1º Cor 11.2-16)
“Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu”. (Iº Co. 11. 5, 6).
“Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore a Deus descoberta?” (Iº Co. 11. 13).

“Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu”. (Iº Co. 11. 15).
Este texto de 1º Cor. 11.2-16 contém um aparente contraste: em dois lugares, determina-se a obrigatoriedade do uso do véu pelas mulheres e, em outro, diz-se que o cabelo nas mulheres lhes foi dado em lugar de véu. O que deve ser feito para sanarmos essa dúvida e como se explica essa aparente contradição?
Os membros do corpo de Cristo são todos varões, sendo varão uma referência ao homem espiritual porque, em Cristo, não há macho nem fêmea (Gal 3.28). Nós não somos membros do corpo de Cristo pela carne, mas pelo espírito, mostrando que a diferença macho/fêmea, que é da carne, não existe Nele. Como a fêmea foi criada da carne do macho (Gn. 2.21-23), anulando-se o macho, desaparece a fêmea.
Mas como fazemos a nossa obra de servos nesse corpo de carne, usado por nosso homem interior (espiritual), o Senhor determinou o uso do véu pelas mulheres, pois, na organização divina, não há sacerdotisa e elas, sendo filhos, não podem ser impedidas de agirem como sacerdotes, como está escrito para todos os cristãos: “E nos fez reis e sacerdotes, para Deus e seu Pai” (Apoc. 1.6), “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1º Pe. 2.9). Portanto, ninguém pode exercer o sacerdócio divino como mulher-fêmea.
O véu, na Bíblia, é símbolo de lei, de sujeição ao poder, dando a entender que algo ou alguém está sujeito a um poder maior e, como exemplo, podemos citar Rebeca que, ao ver seu futuro marido Isaac, cobriu a cabeça, aceitando-o como seu senhor, tornando-se serva dele, figura de Cristo e da Igreja (Gn. 24.65). Na Bíblia, quanto ao serviço, existe uma sequência: Deus não é servo de ninguém e está sobre todos; Cristo, só é servo de Deus; o homem, no seu corpo de macho, é servo de Cristo e a mulher, como fêmea, é serva do homem (Ef. 5.22-29), que é também a mesma ordem de comando: Deus, cabeça de Cristo; Cristo, cabeça do homem-macho e o homem-macho, cabeça da mulher-fêmea (1º Co. 7.3). Para que essa última dependência, macho/fêmea, desapareça, espiritualmente, a mulher coloca o véu e, sendo este a figura da lei de Cristo, fica sujeita ao Senhor, tornando-se varão, servo de Cristo como qualquer homem. Essa relação Cristo, a cabeça e varões - o corpo - é que forma a Igreja. Nessa condição, há liberdade e igualdade espiritual, pois nós todos, como sacerdotes, só devemos obediência ao Sumo-Sacerdote, que é nosso Senhor Jesus Cristo.
Em Israel, segundo se deduz da afirmação de Paulo, a mulher podia rapar o cabelo ou tosquiar-se, assumindo, dessa forma, que era livre do domínio de homem (pai ou marido) e essa era a condição das prostitutas públicas. Por isso o texto diz que “... rapar-se ou tosquiar-se é indecente...”, porque essa era uma liberdade degradante. Portanto, foi dado outro sinal da liberdade da mulher na obra de servo de Cristo: “ponha o véu” (1º Co. 11.6).
Uma mulher verdadeiramente honesta jamais se tosquiaria ou raparia a cabeça em Israel, porque era um símbolo desonroso. A lei de Moisés criou uma estrutura social baseada no sexo e na idade: o homem adulto e os anciãos estavam no topo, com o mando social e a representação sacerdotal, depois vinham os jovens machos e, por fim, as mulheres, consideradas inferiores e dependentes. Com a lei de Cristo foi rompida essa hierarquia social e era necessário um sinal, visível para todas as criaturas, dessa mudança. Além disso, para os Anjos, que sempre serviram ao Senhor fielmente dentro da casa de Israel e conhecem a Lei de Deus dada a Moisés e que não sabem a verdadeira condição da mulher crente em Cristo, as mulheres continuam sendo inferiores e, por isso, “a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos”. (Iº Cor. 11.10) e esse sinal de poderio é o véu, entendido por todas as criaturas como a mulher sujeita a uma nova lei, a de Cristo. Dessa forma, em figura confirmada por suas ações, a mulher-fêmea revela o homem encoberto no seu coração (1º Pe 3.4). Nessa condição, com a cabeça coberta, ela pode orar ou profetizar, diante de Deus, da Igreja e dos Anjos, revelando o filho do Altíssimo que está dentro dela, como um servo cumprindo o papel para o qual foi eleito e vocacionado.
Quando Deus quis mostrar até que ponto havia chegado a decadência de Israel disse: “... mulheres estão à testa do seu governo. Ah, povo meu! Os que te guiam te enganam, e destroem o caminho das tuas veredas” (Is. 3. 12). Essa afirmação mostra qual a visão que as criaturas divinas, debaixo da lei, tinham das mulheres, além de que os anjos também quiseram propagar o evangelho de Cristo e não foi permitido, como na conversão de Cornélio (At. 10.3-6; 1º Pe 1.12), ficando difícil de entender, para eles, como se permitia a alguém inferior (segundo o conhecimento deles) fazê-lo. O véu veio sanar essa dificuldade, mostrando-lhes que os homens (machos e fêmeas) trabalhavam como servos de Cristo, sob uma nova lei. O evangelho de Jesus Cristo, que é a salvação judicial de todo o que crê, só pode ser anunciado por filhos-servos de Deus, nunca por criaturas, seja macho, fêmea ou anjo.
Quando a mulher crente está reunida com outros irmãos (homens crentes), formando dessa maneira o corpo de Cristo, precisa usar o véu, para ser tão livre como eles, servindo ao Senhor com liberdade e igualdade espiritual. Quando está só, tendo o cabelo crescido, este atua como véu, para os estranhos à congregação, porque “ ... o cabelo crescido, lhe é honroso, e lhe foi dado em lugar de véu”. (1º Co. 11.13). Assim, o véu, na reunião dos crentes, anula o sexo e a dependência macho/fêmea e a mulher-fêmea é um irmão entre os irmãos e, na sua vida normal no mundo, o cabelo comprido substitui o véu. Para os homens é exatamente o contrário, a cabeça coberta por cabelos compridos lhes desonra, porque é como se estivessem sob a dependência de outro macho. Com essa ordenação, a igualdade fica garantida e entende-se que “Deus não faz acepção de pessoas” (At. 10.34), aceitando o serviço de todos os seus servos.
2. Limites do sacerdócio das mulheres nas congregações
Que às mulheres cristãs está garantido o direito sacerdotal, viu-se atrás. Entretanto, estabelecer o limite da ação sacerdotal da mulher, nas congregações, tem sido um problema não resolvido desde o início da Igreja. É fácil entender que, como a Igreja se originou dentro da nação judaica, houve muita resistência da sociedade patriarcal masculina a essa mudança radical de costumes que implicava a lei de Cristo, transformando todos os cristãos, homens e mulheres, em sacerdotes, segundo uma nova ordem: a de Melquisedec, tendo sido abolida a ordem levítica (Hb. 5.6,10;6.20;7.11,16;8.6,7; 1º Pe 2.9; Ap. 1.6). Aliás, a resistência à mudança de costumes e serviços ocorreu em todos os sentidos, mas a questão das mulheres se acomodou, agradando ao domínio machista da sociedade humana.
Textos bíblicos são usados tanto pelos que defendem a restrição total como pelos que propagam a abertura total do serviço às mulheres.
Os que restringem, usam: “As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja”. (Iº Co. 14. 34, 35);
“A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito porem, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio” (Iº Tim. 2. 12,13). E os que liberam, contra-atacam: “E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos” (At. 2.17); “E tinha este (Felipe) quatro filhas donzelas, que profetizavam” (At. 21. 9).
Aparentemente, são textos contradiz entes, mas, se situados corretamente, veremos que não há contradição alguma neles.
No Velho Testamento, Joel profetizou (Jl. 2.28) a efusão do Espírito Santo sobre a Igreja, como avisou Cristo (At. 1.5) e como ocorreu no dia de Pentecostes (At. 2.1-21). Evidentemente, a efusão do Espírito foi sobre todos os cristãos – homens e mulheres; jovens e velhos -, mesmo porque a Bíblia diz que quem não tem o Espírito de Cristo não é Dele (Rm 8.9), sendo a presença dele em nós, a confirmação da nossa salvação e filiação divina, de maneira irreversível (2º Co. 1.22; Ef. 1.13). O sinal característico da presença do Espírito Santo em nós é que profetizaremos e teremos visões e sonhos.
O que significa profetizar, ter visões e sonhos?
“ Profetizar”, etimologicamente significa “falar antes” e é, caracteristicamente, o que fez Joel anunciando a efusão do Espírito Santo mais de seiscentos anos antes do acontecimento. Todos os profetas da Bíblia agiram assim e todas as profecias que eram mister serem anunciadas aos homens já o foram, desde Gênesis até Apocalipse. Quanto à forma de anuncia-las, todos os profetas falaram publicamente, e escreveram, para que ficasse em testemunho do aviso de Deus até a data da sua ocorrência, a fim de que nenhum homem pudesse negar a misericórdia do Senhor, avisando-o dos fatos, antes que acontecessem. Assim podemos afirmar, resumindo, que: “ profeta é aquele que anuncia, pública e antecipadamente, o que Deus fará aos homens”. Profeta é o agente, profetizar é a ação e profecia, o objeto da ação.
No tempo presente, “profetizar”, segundo se depreende de 1º Co. 14.3, tem mais um significado – o de edificação, exortação e consolação, sendo sinal para os fiéis (1º Co. 14.22) e todos os crentes, homens e mulheres, podem fazê-lo. Nós vemos que as filhas solteiras de Filipe eram profetizas e que cumpriam o seu ministério, o que evidentemente significa que expunham a palavra em público, dentro da Igreja.
Mas a Bíblia não diz que profetizar, como edificar, exortar e consolar, é o único dom dos crentes, embora este seja indicado como um dom de todos. Está escrito que Cristo “... mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Ef. 4.11), indicando a diversidade de dons dentro da Igreja e que cada um destes dons exige uma qualificação diferenciada. Em 1º Co. capítulos 12 a 14, o apóstolo Paulo fala de diversos dons e da necessidade de ordem dentro das reuniões dos cristãos e é, nesse contexto, que ocorre a famosa proibição: “as mulheres estejam caladas nas igrejas”, logo após a afirmação que “Deus não é Deus de confusão, mas de paz”
Se todos podem dizer aos outro o que Cristo fez por nós, dando testemunho pessoal, edificando-nos, consolando-nos e exortando-nos uns aos outros, todos não deveremos ser usados naquelas funções para as quais Cristo tem qualificado alguns em particular, conforme a lista acima, que trata de dons específicos. E nessa qualificação, nosso Senhor leva em consideração algumas condições que Ele mesmo estabelece. Por exemplo, determina que a congregação seja governada e ensinada por “presbíteros” (anciãos, bispos - At. 14.23; 1º Tm. 5.17; Tt. 1.5) dos quais se exigem certas qualidades humanas e espirituais, sendo, necessariamente, homens casados com uma só mulher, experientes e de longa trajetória na Igreja (1º Tm. 3.2-7; Tt. 1.6-9). Não há nenhum homem que possa ter todas as qualidades do presbítero; por isso, a Igreja é governada por um presbitério, onde diversos homens maduros se completam e preenchem as qualidades exigidas por Cristo, reconhecidas neles pelos crentes. Evidentemente, quase todos os homens adultos, todos os jovens e todas as mulheres estão excluídos dessa função.
Assim como para o presbitério, usado acima como exemplo, em todos os outros dons específicos há condições específicas. Algumas atividades são comuns a todos os crentes, outras são para os homens e outras, para as mulheres. A Bíblia e o bom senso, assistidos pelo Espírito, indicam o que se deve fazer. Paulo, por exemplo, cita as mulheres que trabalharam com ele e Clemente no evangelho, como cooperadoras (Fp. 4.3), mostrando que a evangelização é comum a todos os crentes. Febe é citada como irmã que serve na igreja de Cencréia, e é quem, provavelmente, levou a carta de Paulo aos Romanos (Rm. 16.1). Essas mulheres, como cooperadoras, eram evangelistas e diaconisas.
Voltando a 1º Co. 14:34,35, observamos que, à essa proibição de falar, feita às mulheres, antecede-se a afirmação de que “Deus não é Deus de confusão, mas de paz”, mostrando que as mulheres foram proibidas de falar numa reunião sem paz, com muita encrenca e confusão. Que reunião seria essa? Temos uma pista em At. 15. No primeiro concílio da Igreja, em Jerusalém houve grande contenda entre apóstolos, anciãos e irmãos. E podemos ver nas cartas de João que, muitos anos depois, ainda havia contenda entre dirigentes (3º Jo. 9,10). Há outros exemplos no Novo Testamento (At. 15.36-41; Gl. 2.11-13) e as reuniões de dirigentes costumam ser, até hoje, conturbadas. Logo, o que houve em Corinto foi que as mulheres se meteram em questões do presbitério, falando e envolvendo-se com assuntos que não eram delas, como governo e ensino, inclusive desrespeitando maridos presbíteros. Por isso, a proibição está restrita às mulheres casadas, ao ensino e ao respeito aos maridos presbíteros, que tinham condição de ensiná-las em casa e não podiam ser desqualificados publicamente por suas esposas. Se um presbítero não é capaz de se impor à sua mulher, governando a sua casa (uma das condições de 1º Tm. e Tito), como vai ser capaz de se impor na Igreja?
Vemos, pelo explanado, que não há proibição para o trabalho da mulher nas igrejas e nem para o trabalho de qualquer irmão. Apenas devem ser respeitados os limites de cada trabalho e tudo feito decentemente, com ordem (1º Co. 14.40). Sempre há um risco muito grande de erro, quando se interpreta um texto fora do seu contexto, criando pretexto para qualquer tipo de ideia. Isso tem sido feito com 1º Co. 14.34,35 que tem sido generalizado para justificar qualquer proibição às mulheres.
Há ainda, um aspecto que não pode ser negligenciado: embora as congregações reflitam, no seu aspecto humano, a complexidade da comunidade onde estão instaladas, havendo nelas machos, fêmeas, jovens, velhos, brancos, negros, amarelos, ricos, pobres, livres, servos, etc., espiritualmente, o corpo é um só, varão, porque é o corpo de Cristo, mas, funcionalmente, existe um casal, onde a Igreja é a Esposa do Cordeiro e Cristo é o Marido, o Cordeiro.
Em Ef. 5.22,23 Cristo compara a sua relação com a Igreja à figura do casamento: “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é cabeça da igreja, sendo Ele próprio o salvador do corpo”. Ele cumpre o que está escrito: “serão dois numa só carne” (Gn. 2.24) e “... o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito”. (Iº Cor. 6.17) e aí está o casamento perfeito: a Igreja, como Esposa e Cristo, como o Marido, tendo Ele feito a obra da salvação judicial e onde, nós, a Esposa, estamos fazendo a salvação moral pelas obras, não havendo, nesse casamento, lugar para carne e sangue animais (1º Co. 15.50), que é onde está a diferença macho/fêmea. Ele e a Igreja formam um ente indivisível, tendo o Marido dado a vida pela esposa (Igreja), santificando-a, ensinando-lhe, glorificando-a e preparando-a para as boas obras. Essa é a verdadeira figura do casamento, dado como modelo para o casamento dos homens. O Senhor espera que a sua esposa ame-O, respeite-O e Lhe seja obediente. Muitas vezes a nossa vaidade humana tem posto a perder toda a obra da Igreja, porque a Esposa do Cordeiro não tem agido de maneira digna de seu Marido. O Esposo divino quer sua esposa (igreja) gloriosa, pura, santa, cheia de viço e beleza, obediente só a Ele, inclusive no uso do véu.
Embora, comumente, se use indistintamente o termo macho igual a homem e fêmea igual à mulher, na Igreja não é assim, porque macho e fêmea se referem à condição animal, biológica, da raça humana, enquanto que mulher e homem relacionam-se às funções que os crentes podem exercer dentro da obra. Todos os crentes, machos e fêmeas, é Mulher quando agem como filhos-servos de Cristo neste mundo, fazendo a obra de gerar e educar filhos para o Senhor, criando a Família de Deus e todos os crentes, machos ou fêmeas são Homem quando adoram ao Pai, na Ceia, assumindo a posição de Filhos adoradores.
Assumindo-se, pois, a Igreja como a Esposa, ela realmente deve ficar em silêncio diante de Cristo, aprendendo com toda a sujeição e humildade, não se intrometendo em assuntos de governo e ensino, que são exclusividade do Marido. A Palavra escrita, a Bíblia, não pode ser deturpada por interpretações interesseiras, onde prepondere a carne. Quando nós queremos deixar mais da metade dos cristãos – a parte feminina - calados, baseando-nos numa restrição de ordem sexual, certamente estamos interferindo no magistério de Cristo e isto fica claro na interpelação do apóstolo: “é decente a mulher orar com a cabeça descoberta?”, dando a entender claramente que, com a cabeça coberta, o é.
Por isso a Bíblia alerta: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs subtilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo:” (Col. 2. 8), “E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada.” (Tg. 1.5).
Desde que nós peçamos sabedoria com toda a humildade, sabendo de nossa total dependência de Deus, com o firme propósito de usar o conhecimento recebido no serviço de Cristo, entenderemos que todos os salvos, homens ou mulheres, temos os mesmos direitos e as mesmas obrigações, diferenciados os serviços, apenas pelo dom que foi dado a cada um e por sua limitação bíblica.
Saberemos também que todos comparecerão ante o tribunal de Cristo, para recebermos bem ou mal, segundo o que tivermos feito por meio deste corpo de carne (Rm. 14.10), na formação e no desenvolvimento espiritual da grande família dos filhos de Deus. Que cada um faça bem firme a vocação e eleição de acordo com o dom que recebeu do Espírito Santo, pois é Ele quem pôs cada um no corpo como quis, de acordo com a sabedoria de Deus (Ef. 4.11,12). Que ninguém impeça outrem de exercer a sua vocação ou queira usurpar o seu lugar no corpo de Cristo e, principalmente, o lugar do Senhor Jesus, que é a cabeça da Igreja.
Louvado seja o nosso Deus e Pai para todo o sempre pelas suas infinitas misericórdias e pelo seu grande amor com que nos amou por sua glória e virtude. Amem!


A.F.S.M.

domingo, 15 de maio de 2016

A História de Jacó e Raquel - e muito ensino para nós!

Armado com a preciosa promessa da presença de Deus, Jacó se dirigiu para Harã, a terra da família de sua mãe. Foi uma jornada longa e solitária. Quando chegou aos arredores da cidade, ele estava exausto, com os pés doloridos, com saudades de casa e sem saber exatamente aonde ir. Ele viu um poço e parou para descansar. Havia alguns pastores sentados por ali e ele começou a conversar com eles: “Meus irmãos, donde sois? Responderam: Somos de Harã”. Jacó provavelmente soltou um suspiro de alívio. O Senhor o levara em segurança ao seu destino. Ele continuou: “Conheceis a Labão, filho de Naor? Responderam: Conhecemos. Ele está bom? Perguntou ainda Jacó. Responderam: Está bom. Raquel, sua filha, vem vindo aí com as ovelhas” (Gn. 29:4-6).
Jacó virou a cabeça e deu um olhar fatal; sem dúvida, foi amor à primeira vista. Ela era linda, “formosa de porte e de semblante” (Gn. 29:17). E seus olhos — como eram deslumbrantes! Se comparados aos da irmã mais velha, Lia, que não tinham brilho ou luz, eles devem ter sido pretos e brilhantes, de uma beleza cativante.
Jacó ficou muito impressionado — talvez, até demais. A ideia que temos é que ele ficou tão fascinado pela beleza de Raquel, e tão encantado com seu charme, que nem viu seus defeitos ou considerou a vontade de Deus em relação a ela. E, sendo um manipulador sagaz como era, na mesma hora começou a tratar do assunto. Ele lembrou aos pastores que ainda era hora de apascentar as ovelhas, e eles deveriam dar de beber aos rebanhos e levá-los de volta ao pasto enquanto era dia, provavelmente uma manobra para se livrar deles e poder conversar com Raquel a sós. Os pastores, no entanto, tinham algum tipo de acordo de não rolar a pedra de volta à boca do poço enquanto todos os rebanhos não estivessem reunidos (Gn. 29:7-8).
“Falava-lhes ainda, quando chegou Raquel com as ovelhas de seu pai; porque era pastora.  Tendo visto Jacó a Raquel, filha de Labão, irmão de sua mãe, e as ovelhas de Labão, chegou-se, removeu a pedra da boca do poço e deu de beber ao rebanho de Labão, irmão de sua mãe” (Gn. 29:9-10). Jacó pode ter sido um homem caseiro, mas não era um fracote. Ele moveu uma pedra que, normalmente, precisaria de vários homens para ser movida; e deu água às ovelhas de Rebeca. Será que ele estava se exibindo um pouquinho?
Continuando a leitura: “Feito isso, Jacó beijou a Raquel e, erguendo a voz, chorou” (Gn. 29:11). A emoção daquele momento tomou conta dele. A direção e o cuidado milagroso de Deus, a empolgação do encontro com sua bela prima, a perspectiva do que lhe reservava o futuro — tudo isso encheu tanto seu coração, que ele chorou de alegria. Em nossa cultura, é estranho ver um homem expressar suas emoções dessa forma, mas a expressão sincera dos sentimentos de uma pessoa pode melhorar a saúde emocional e dar mais estabilidade conjugal.
Parece que o romance ia ter um início ardente. A bela da vizinhança e o garotão novo na cidade tinham se encontrado. No entanto, este início nos faz ficar com a pulga atrás da orelha sobre essa união. Sabemos que um relacionamento baseado originalmente na atração física está em terreno instável. Hollywood tem nos dado boas evidências para essa tese. E os infortúnios de um notório jogador de futebol americano e a volta pra casa de uma rainha também dão base para isso1. Esses casais podem fazer o casamento dar certo, mas exigirá um pouco mais de esforço, e eles precisarão trabalhar sua relação para além do magnetismo físico que deu início a ela.
Contudo, quando um homem está enamorado de uma mulher, não quer ouvir esse tipo de coisa. Ele vai tê-la e nada mais importa. Só um mês depois de Jacó ter chegado a Harã, Labão vai ter com ele para ver se poderiam chegar a um acordo salarial mutuamente aceitável. A Escritura diz que Jacó amava Raquel e se ofereceu para servir Labão durante sete anos, a fim de receber a mão dela em casamento (Gn. 29:18). Ele não tinha nada a oferecer a Labão, por isso, prometeu seu trabalho no lugar do dote. Agora, ficamos ainda mais encasquetados. Um mês não é tempo suficiente para chegarmos a conhecer alguém o bastante para fazer um compromisso para toda vida e, com certeza, não é tempo suficiente para saber se amamos ou não a pessoa. O verdadeiro amor exige conhecimento profundo. Dizer que amamos alguém a quem não conhecemos intimamente é simplesmente dizer que amamos a nossa imagem mental dessa pessoa. E, se ele ou ela não corresponderem a essa imagem, então, o dito “amor” vira desilusão e ressentimento e, às vezes, até aversão.
Jacó, entretanto, achou que estava apaixonado. Quando Raquel estava por perto, seu coração batia mais rápido e um sentimento maravilhoso tomava conta dele. Ela era a criatura mais linda em que seus olhos tinham pousado e ele achava que a vida sem ela não valia a pena. Para ele, isso era suficiente. “Assim, por amor a Raquel, serviu Jacó sete anos; e estes lhe pareceram como poucos dias, pelo muito que a amava” (Gn. 29:20). Na verdade, essas palavras são as mais belas que já foram escritas sobre o sentimento de um homem por uma mulher. Sete anos é um longo tempo de espera, e eu acho que o amor de Jacó por Raquel cresceu muito durante esses anos. A atração física ainda estava presente, mas não era possível ele viver tão próximo a ela durante tanto tempo e não ter aprendido muitas coisas a seu respeito, tanto boas como ruins. Esse casamento ia passar por momentos difíceis, mas não fosse o longo compromisso e o amor profundo e maduro de Jacó, provavelmente não teria sobrevivido.
Muitas pessoas se casam rápido demais e depois se arrependem. Sete anos de compromisso talvez seja um pouco exagerado, mas é preciso tempo para conhecer as qualidades desejáveis e indesejáveis de uma pessoa, a fim de decidir se podemos nos dar de forma abnegada pelo bem do outro, apesar de suas características desagradáveis. Por isso, um bom teste para o verdadeiro amor é a capacidade de esperar. A paixão normalmente tem pressa porque é egoísta. Ela diz: “Eu me sinto bem quando estou ao seu lado, por isso, vamos nos casar logo antes que eu lhe perca e a esse sentimento tão bom”. O amor diz: “Meu maior desejo é a sua felicidade e estou disposto a esperar, se for preciso, para ter certeza de que isso é o melhor para você”. E, se for verdade, ele vai passar pelo teste do tempo. Jacó esperou, e seu amor à primeira vista se tornou uma ligação profunda e um compromisso completo da alma.
Há um antigo ditado que diz: “O verdadeiro amor nunca se desgasta”. Foi assim com Jacó e Raquel. Vamos dar uma olhada nesse amor sob grande stress. Tio Labão foi alguém que tentou entornar o caldo. Astuto, velhaco e malandro como era, ele substituiu Raquel por Lia na noite do casamento de Jacó. Usando um pesado véu e roupas longas e esvoaçantes para encobrir o corpo, Lia conseguiu passar a cerimônia toda sem ser detectada. Na tenda escura, ela passou a noite falando aos sussurros. Dá para imaginar o tremendo choque de Jacó quando a luz da manhã revelou a tramoia de Labão? Ele deve ter ficado furioso com a família inteira por causa dessa armação traiçoeira.
Esta não foi a melhor maneira de Lia começar sua vida de casada, não é? Suspeito que ela amasse Jacó desde o princípio e queria ser correspondida. De bom grado ela ajudou o pai a colocar seu plano em prática, mas encontrou pouquíssima satisfação no marido que conseguiu por meio de trapaça. Enganar alguém para se casar é um negócio muito arriscado, mas ainda é feito hoje em dia. Algumas mulheres tentam comprar um marido com sexo ou prendê-lo com um bebê ou, ainda, apelando para a fortuna da família. Um homem também pode prender uma mulher prometendo-lhe riquezas ou enganá-la fingindo ser o que não é, mascarando seus defeitos até o dia do casamento. Às vezes, mal termina a lua de mel e a esposa descobre que se casou com um monstro que não conhecia. As consequências da farsa geralmente são dolorosas e angustiantes.
O “generoso” Labão dispôs-se a lhe dar também Raquel, se Jacó trabalhasse para ele por mais sete anos. “Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás” (Gn. 29:27). Esta semana se refere à semana das festividades de casamento. Jacó não teve de esperar outros sete anos para ter Raquel, só uma semana. Mas ele teve de trabalhar mais sete anos sem pagamento depois de se casar com ela. “Mas Jacó amava mais a Raquel do que a Lia; e continuou servindo a Labão por outros sete anos” (Gn. 29:30).
E, assim, temos o primeiro patriarca temente a Deus entrando em um relacionamento bígamo. Não era essa a vontade perfeita de Deus. Deus fez uma mulher para cada homem (Gn. 2:24, cf. também Lv. 18:18, 1 Tm. 3:2). Embora Jacó tenha sido enganado, havia outras opções. Alguns comentaristas dizem que ele deveria ter rejeitado Lia, uma vez que não a teve por vontade própria. Gostaria de sugerir outra possibilidade: ele poderia ter aceitado seu casamento com Lia como sendo da vontade de Deus e aprendido a amar só a ela. Isaque aceitou as consequências da farsa de Jacó quando este se passou pelo irmão, Esaú, e roubou a bênção da família; e Isaque foi elogiado por isso no Novo Testamento. Talvez Jacó também fosse elogiado por aceitar as consequências da vontade soberana de Deus se tivesse galgado esse degrau da fé. E, gostaria de lembrar, ainda, que foi Lia, não Raquel, a mãe de Judá, por meio de quem viria o Salvador (Gn. 29:35). Mas Jacó não estava disposto a acreditar no controle de Deus sobre a situação. Ele ia ter o que queria, embora esta não fosse a vontade de Deus. E os acontecimentos seguintes devem ser evidência suficiente de que bigamia nunca foi parte do plano de Deus para a raça humana.
Sob a pressão desse relacionamento bígamo, a verdadeira personalidade de Raquel veio à tona. Quando percebeu que Lia dava filhos a Jacó, e ela não, ela ficou com muito ciúme da irmã e disse a Jacó: “Dá-me filhos, senão morrerei” (Gn. 30:1). Essencialmente, ela estava dizendo: “se as coisas não podem ser do meu jeito, prefiro morrer”. Eis uma mulher que tinha quase tudo na vida — grande beleza física, todo tipo de coisas materiais e a devoção profunda de um marido apaixonado. Será que o amor de Jacó não valia mais que uma porção de filhos? Não, não valia, pelo menos não para Raquel. Ela tinha de ter tudo que queria ou a vida não valeria a pena. Ela estava cheia de inveja, egoísmo, irritação, impaciência, infelicidade e exigência. E Jacó acabou perdendo a paciência, “Acaso, estou eu em lugar de Deus que ao teu ventre impediu frutificar?” (Gn. 30:2).
A raiva dele não tinha razão de ser aos olhos de Deus, mas sua avaliação da situação estava totalmente certa. O milagre da concepção está no poder de Deus.
A insatisfação tem arruinado incontáveis relacionamentos desde a época de Jacó. Alguns casais ficam zangados por Deus não lhes dar filhos, enquanto outros não veem a hora dos filhos crescerem e saírem de casa para que tenham paz e sossego. Donas de casa querem trabalhar fora, e mulheres que trabalham fora querem ficar em casa em tempo integral. Há cristãos descontentes com o lugar onde vivem, com o emprego, com o dinheiro que possuem e com a casa onde moram. Para eles, há sempre algo mais que parece melhor. Algumas esposas estão descontentes com o marido. Elas se queixam e reclamam porque eles não lhes dão atenção suficiente, não passam muito tempo com os filhos, não querem consertar as coisas em casa, ficam fora até tarde ou pensam mais no trabalho, no carro, no lazer, na televisão e nos esportes do que nelas. Alguns maridos estão descontentes com a esposa. Eles as criticam pelo jeito como se vestem, como arrumam o cabelo, como cozinham, como arrumam a casa ou como cuidam dos filhos. Ficam irritados porque elas dormem até tarde, porque comem demais, porque perdem muito tempo ou porque gastam muito dinheiro. Não importa o quanto elas tentem, elas nunca conseguem agradar o marido.
Algumas dessas coisas são importantes e precisam ser discutidas. Não estou sugerindo que sejam totalmente ignoradas e soframos em silêncio. No entanto, o espírito de insatisfação que nos faz discutir, implicar, bater-boca, brigar e reclamar é um grande empecilho para um relacionamento conjugal feliz. Deus quer que estejamos contentes com o que temos. “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento” (1 Tm. 6:6). Paulo podia dizer: “Porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp. 4:11). Quando somos capazes de reconhecer a presença da insatisfação na nossa vida e vê-la como pecado, podemos buscar a graça de Deus para superá-la e encontrar novas alegrias.
O descontentamento de Raquel a levou ao mesmo tipo de estratagema carnal tentado por Sara. Ela deu sua serva Bila a Jacó, para que ele tivesse um filho com ela, e fez isso duas vezes (30:3-8). Tecnicamente, na cultura daquela época, os filhos dessa união seriam filhos de Raquel. No entanto, temos outro vislumbre da sua natureza egoísta quando nasceu o segundo filho de Bila. Raquel disse: “Com grandes lutas tenho competido com minha irmã e logrei prevalecer” (Gn. 30:8). Ela chamou a criança de Naftali, que significa “luta”. Ela via a si mesma em disputa com a irmã pelo primeiro lugar na opinião de Jacó.
Pouco tempo depois, sua insatisfação ciumenta foi vista novamente. O pequeno Rubem, primogênito de Lia, que devia ter uns quatro anos na época, foi ao campo atrás dos ceifeiros e pegou umas plantas chamadas mandrágoras, ou maçãs do amor, como fazia qualquer garotinho naquele tempo. Quando ele as trouxe para casa e as deu à sua mãe, Raquel as viu e disse que também queria. Ela parecia sempre querer algo que era dos outros. Por isso, ela deu os favores de Jacó a Lia naquela noite em troca de algumas dessas maçãs do amor (Gn. 30:14-15).
Mas o espírito de insatisfação apareceu novamente na vida de Raquel. Deus finalmente lhe deu o seu próprio filho, por isso, era de se esperar que ela ficasse satisfeita. No entanto, ela lhe deu o nome de José, que significa “possa ele dar mais”. E disse: “Dê-me o SENHOR ainda outro filho” (Gn. 30:24). Mais, mais, mais! Raquel nunca estava satisfeita com o que tinha.
Mas ainda não acabou. Deus disse a Jacó que era hora de deixar o tio Labão e voltar para casa, em Canaã. Jacó havia prosperado tanto que Labão não era mais favorável a ele. Por isso, ele reuniu suas esposas, seus filhos e seus pertences e saiu de fininho enquanto Labão tosquiava as ovelhas. Mas Raquel pegou alguma que não era de nenhum deles; ela pegou os ídolos de seu pai, uns ídolos do lar chamados terafins (Gn. 31:19). Quem possuísse essas imagens era aceito como o principal herdeiro da família, mesmo sendo o genro.
Mais uma vez, a ganância de Raquel estava se revelando. Ela queria que seu marido, não seus irmãos, tivesse a maior parte da herança da família, para que também pudesse se beneficiar dela. Quando Labão, finalmente, os alcançou e procurou entre os pertences deles por seus terafins, Raquel mentiu para ele e o enganou para que ele não os encontrasse (Gn. 31:33-35). A adorável Raquelzinha parece ter sido uma megera!
Mas sabem de uma coisa? Exceto pela vez em que Jacó se zangou com ela por tê-lo culpado pela falta de filhos, não há nenhuma indicação de que ele a tenha amado menos por causa dos seus defeitos. Na verdade, há indícios de que ele manteve sua devoção até o final da vida dela. Por exemplo, ela a colocou numa posição privilegiada, em último lugar do grupo, quando eles foram ao encontro de Esaú e suas vidas poderiam estar em perigo (Gn. 33:2). Jacó estava longe de ser perfeito, mas ele é um exemplo para nós de como um marido deve tratar a esposa quando ela não é tudo o que deveria ser.
Alguns maridos dizem: “Eu gostaria mais dela se ela fosse mais amável”. Amor que só funciona quando a esposa é amável não é realmente amor. Deus quer que as esposas sintam a intensidade do amor do marido por elas até quando estão agindo como idiotas (Ef. 5:25). E a maioria de nós tem momentos assim. Talvez os homens, de vez em quando, devessem se perguntar, principalmente quando houvesse algum desentendimento: “Minha esposa tem consciência do meu amor por ela neste momento? Ela está sentindo amor ou está sentindo raiva, hostilidade e rejeição?” Deus fez a mulher com necessidade de ter a segurança do amor do marido por ela durante todo o tempo. E isso vai depender muito da atitude dele nas menores coisas, tais como a expressão do seu rosto ou o tom da sua voz, especialmente quando ela estiver mal-humorada ou chateada.
Já vimos o amor de Jacó à primeira vista e também seu amor sob grande stress. Finalmente, vamos ver seu amor em meio à profunda tristeza. Deus permitiu a Raquel ter um último pedido atendido. Ela gerou outro filho. Seu parto foi muito difícil e logo ficou evidente que ela ia morrer quando a criança nascesse. Quando a parteira lhe disse que ela dera à luz, ela balbuciou o nome da criança com um último suspiro — Benoni, que significa “filho da minha tristeza”. Mais tarde, Jacó mudou-o para Benjamim, que quer dizer “filho da minha destra”. Mas isso não é ironia? Um dia, anos antes, ela gritou: “Dá-me filhos, senão morrerei”. E ela morreu dando a luz ao segundo filho. A criança sobreviveu. Raquel, no entanto, foi sepultada ao lado do caminho que liga Belém a Jerusalém. Ainda podemos visitar seu túmulo, um monumento permanente ao desastre da insatisfação.
Jacó nunca se esqueceu de Raquel. Aos 147 anos de idade, ao reunir todos os filhos no Egito para abençoá-los, ele ainda pensava nela. “Vindo, pois, eu de Padã, me morreu, com pesar meu, Raquel na terra de Canaã, no caminho, havendo ainda pequena distância para chegar a Efrata; sepultei-a ali no caminho de Efrata, que é Belém” (Gn. 48:7). Ele a amou até o fim da vida. Mas, que bem fez isso a ela? Ela não conseguiu aproveitar totalmente esse amor. A insatisfação que a corroia impediu-a de desfrutar plenamente qualquer coisa, e impediu outras pessoas de gostarem dela. Isso a isolou num mundo amargo de solidão. Então, ela morreu, deixando Jacó para a irmã que ela tanto invejou em vida. E, mesmo na morte, ela continuou sozinha. A pedido de Jacó, ele foi sepultado ao lado de Lia na caverna de Macpela, em Hebrom, junto de Abraão, Sara, Isaque e Rebeca (Gn. 49:29-31; 50:13). Raquel jaz sozinha.
Será que a nossa solidão ou os conflitos nos nossos relacionamentos são consequências de um espírito interior de insatisfação? Isso não vai mudar enquanto pensarmos que podemos encontrar satisfação em coisas materiais ou circunstâncias melhores. Raquel é prova disso. A verdadeira satisfação só pode ser encontrada no Senhor. Ele é o único que satisfaz a sede da alma e sacia sua fome com coisas boas (Sl. 107:9). Ele nos diz para nos contentarmos com aquilo que temos, pois, embora as circunstâncias da vida mudem todos os dias, Ele é imutável e está sempre conosco (Hb. 13:5). Conforme aumentar o nosso conhecimento, pelo estudo da Palavra de Deus e pela oração em Sua Presença, encontraremos mais paz e maior satisfação dentro de nós. E, então, seremos capazes de receber, com gratidão, aquilo que Ele nos dá e, ao mesmo tempo, agradecer por aquilo que Ele não nos dá, confiantes de que os Seus caminhos são perfeitos. E seremos capazes de mudar aquilo que pode ser mudado, enquanto aceitamos alegremente aquilo que não pode ser mudado, tendo a certeza de que é parte do Seu plano perfeito para nos levar à maturidade em Cristo.

Vamos Conversar Sobre isso

  1. Discuta a validade de um conhecimento maior e mais profundo antes do casamento. Como casais que se uniram sem esse conhecimento podem compensá-lo agora?
  2. O que Raquel poderia ter feito para controlar sua insatisfação e seu ciúme? O que Jacó poderia ter feito para ajudá-la?
  3. Quais coisas na sua vida você consideraria de maior valor?
  4. Termine a frase como teria feito antes de ler este capítulo: “Eu poderia ser feliz se ao menos…”
  5. Se você completou a frase com algum tipo de situação melhor ou de bem material, como poderia terminá-la sendo mais coerente com os princípios da Palavra de Deus?
  6. Quais características do seu cônjuge lhe dão mais satisfação? Quais o incomodam mais? Se sentir que certas coisas devem ser mudadas, o que fará?
  7. Você tem ciúmes de outra pessoa? Como Deus quer que você lide com esse sentimento?
  8. Para os maridos: Sua esposa sempre sente seu amor por ela? Talvez você descubra perguntando a ela. Como você pode demonstrar o seu amor mesmo quando ela está “atacada”?

1 O. J. Simpson e Grace Kelly

Texto publicado em: https://bible.org/node/23546